Atualizado 06/03/2018

Novas terapias para hepatite C permitem que 'rins doentes' sejam usados em transplante

Cientistas transplantam rins com hepatite C sem que o receptor do órgão desenvolva a doença -- iniciativa experimental pode tirar muitos da fila de espera.

Pesquisadores da Universidade de Johns Hopkins, nos Estados Unidos, conseguiram transplantar com sucesso 10 rins infectados com hepatite C. Aqueles que receberam os órgãos não desenvolveram a doença graças a medicamentos mais modernos contra a condição.

O feito é particularmente importante porque, nos Estados Unidos, 500 rins com hepatite C são descartados por ano. Na outra ponta, aproximadamente 100 mil pessoas aguardam na fila por um órgão.

No Brasil, o rim está entre os órgãos com maior fila de espera para transplante, junto com fígado e pâncreas, segundo o Ministério da Saúde.

Embora a hepatite C atinja principalmente o fígado, o vírus fica presente na maior parte dos órgãos -- entre eles, o rim. Por esse motivo, um transplante não poderia ser realizado usualmente sob o risco do paciente transplantado contrair a doença.

Assim, rins com hepatite C só poderiam ser usados em pessoas positivas para o vírus da hepatite. Como não há tanta gente com a condição na fila de espera, muitos órgãos acabam sendo descartados.

 

"Descobrir como usar esses rins é uma maneira de fazer mais transplantes e salvar mais vidas", diz Niraj Desai, professor de cirurgia da Universidade Johns Hopkins, em nota.

 

O estudo com a descrição do experimento foi publicado no Annals of Internal Medicine nesta segunda-feira (5).

 

Cura para hepatite C possibilitou experimento

 

Os transplantes de rins "doentes" foram possíveis pelo surgimento de novos medicamentos para a hepatite C nos últimos anos, condição que tinha um tratamento demorado, caro, e difícil.

Chamadas de terapias de ação direta, essas terapias impedem que o vírus se multiplique: o que leva a uma cura de até 98%. Elas também possuem menos efeitos colaterais que terapias anteriores.

Antes, como os pacientes possuíam muitas cópias do vírus, a infecção atingia praticamente todos os órgãos -- inclusive os rins, que não poderiam ser transplantados.

 

Transplantados não desenvolveram a doença

 

Dez pacientes que aguardavam por um transplante de rim concordaram em participar do estudo. Eles eram negativos para hepatite C, HIV e hepatite B, tinham em média 71 anos e estavam há quatro meses aproximadamente na fila de espera.

Os rins vieram de doadores positivos para hepatite C, que não apresentavam evidências de doença renal. Antes de doarem o órgão, eles receberam uma dose de terapia anti-hepatite C. Transplantados continuaram o tratamento por mais 12 semanas após o transplante.

O vírus nunca foi detectado em cinco dos participantes. Nos demais, baixos níveis do vírus foram detectados logo após o transplante, mas não foram mais encontrados após dias ou uma semana. Nenhum transplantado jamais desenvolveu a hepatite C. Eles foram acompanhados por um ano.

O próximo passo do estudo é replicar o resultado em mais pacientes, em um estudo multicêntrico (feito em mais de um lugar, com mais pesquisadores envolvidos).

 

"Esses 10 rins que usamos são 10 rins que não teriam sido transplantados fora deste estudo", diz Desai, em nota. "Eles teriam sido descartados."

Fonte: G1.GLOBO
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