Atualizado 20/07/2018

O namoro de hoje: com opções quase infinitas, como ter certeza de que minha escolha é a melhor?

Com tanta gente disponível e todo mundo parecendo perfeito, ficou mais difícil aceitar um relacionamento imperfeito

No excelente Newness, filme produzido e lançado pela Netflix, Gabi é uma jovem que trocou a Espanha pelos Estados Unidos para fazer faculdade de História. Mas depois decidiu estudar psicologia – e, mais adiante, biologia evolutiva. Hoje, se aproximando dos 30, trabalha como assistente de fisioterapia.

 

 

Gabi conta isso no primeiro encontro com Martin – um farmacêutico da mesma idade, com quem ela havia trocado duas ou três mensagens em um aplicativo parecido com o Tinder. Ao explicar que precisa de "novidades constantes" e que adora "experimentar coisas", a personagem solta uma frase emblemática:

Não há sinal de desconforto nessa constatação, pelo contrário: Gabi irradia naturalidade. Até porque, confirmando sua sede por experiências, pouco antes de se encontrar com Martin ela teve outro primeiro encontro – só que a transa foi péssima. Martin também, duas horas antes, estava com outra mas a moça vomitou de tão bêbada antes do sexo.

Sem amaldiçoar nem aplaudir, Newness propõe uma reflexão inquietante sobre como a geração Y se relaciona com a vida – e especialmente com o amor. Eu aqui, com meus 35 anos, portanto entre os mais velhos dessa turma, pensava só em uma coisa ao final do filme: é bem compreensível que boa parte de nós, de fato, não saiba direito o que quer, como reconhece Gabi.

Quando as opções são quase infinitas, como posso ter certeza de que a escolhida por mim é realmente a melhor?

Estamos na era da atualização, do update, não há mais espaço para o obsoleto, para o antigo, para a frustração nem para a tristeza – a felicidade é uma obrigação, todo mundo parece feliz, bonito, resolvido, realizado. Sendo assim, obviamente há gente interessante e disponível por todo canto. Basta arrastar o polegar no Tinder ou mandar um galanteio no Instagram e pimba, conheço uma pessoa e experimento a novidade.

Mas, se todo mundo é tão perfeito, como vou aceitar um namoro imperfeito?

Aí vem a impressionante quantidade de casais que decidem abrir a relação. Só eu conheço seis. No filme da Netflix, uma escritora que estuda os jovens diz o seguinte: "As pessoas agora buscam um relacionamento em que tenham tanto a âncora quanto as ondas. A estabilidade e a segurança, mas também a liberdade e a autonomia. Essa união improvável é, provavelmente, o grande desafio do amor na era moderna".

Quer dizer, ou eu tenho tudo, ou não me serve.

Se transar já foi o estágio mais profundo de uma relação, hoje a prova de intimidade é apresentar para os amigos.

 

 

Os mais velhos talvez digam que isso é uma depravação, uma frivolidade, uma prova da pequenez dos jovens de hoje. Bem, você prefere isso ou prefere só conhecer, de fato, a pessoa com quem vai morar junto depois de jurar perante Deus que passará a vida ao lado dela? Prefere isso ou ser obrigado a manter um casamento infeliz durante décadas porque "a sociedade" não aceita o divórcio? Prefere isso ou conviver com uma turma que chama de puta uma mulher que sai com dois homens na mesma semana? Prefere isso ou passar a vida batendo ponto todo dia no mesmo trabalho morrinha?

Com todo o respeito, não venha apontar esse dedinho podre para cá. A geração Y tem suas desgraças, claro, mas é evidente que as anteriores também tiveram. Se há poucas décadas transar era o estágio, digamos, mais profundo de uma relação estabelecida, hoje a verdadeira prova de intimidade é ser apresentado para os amigos.

Com as pessoas tão convictas de que podem – e de que devem – buscar o prazer, talvez as obrigações em relação ao outro estejam mesmo se enfraquecendo. O que pode ser  bem cruel. Mas também libertador.

– Para mim é muito difícil saber o que realmente quero fazer.

Fonte: GAÚCHA ZH
© Copyright 2017 - Rede Nossa Rádio, Todos os direitos reservados Desenvolvido por HZ Soluções